Vozes nuas, vozes das ruas!

Evanildo B. Silva (Diretor da FASE, membro do Comitê Popular da Copa PE e Doutor em Desenvolvimento Urbano UFPE/MDU) 

Falar na primeira pessoa pode ser só um recurso literário ou um testemunho social qualquer para dar vazão a algum sentimento corriqueiro, humano demasiado humano. Aqui peço licença para compartilhar “sentimentos da luta”, motivado pelas muitas manifestações que ocorrem no Brasil da última semana e das quais tenho muitas partes coletivas. Portanto, mais um a falar!  A motivação é histórica e o exercício tem sido diário. Em meio a tantas verdades uma parece balançar: o Brasil melhorou, é o que se atesta. A oficialidade acadêmica, a governança estatal e seus instrumentos de comunicação e persuasão, Congresso, Partidos Políticos aliados, sindicatos e outras alianças na sociedade política creem piamente nessa “guerra discursiva”. O mundo empresarial rir do que vê e do que lucra. A vida pra essa turma é primaveral. Juntos, a galera do birô parece confiante e assim toca a vida pública, toca a vida privada, toca a vida… Marcha-se agarrado a uma esfinge da PPP (parceria público privada) e do que dela extrai de melhor. E nós, ou seja, o resto que aí não de encontra? Bem, pra manter acesa a chama, resta ainda a luta. Estamos coletivos em algum Comitê Popular da Copa, algum Conselho de políticas para as cidades, algum Fórum de reforma urbana, alguma associação de organizações não governamentais, algum facebook, twitter, blog e sei lá o quê mais, muitos outros alguns, às vezes, quase nada de força. A névoa do autoritarismo discursivo governamental – replicada em potentes ondas sonoras – impõe uma sensação que às vezes é sim de recuo na conjuntura – só menos gélida que o ambiente da institucionalidade democrática que não se deu conta que as “mudanças climáticas da participação” acenderam as fogueiras das ruas no país inteiro (no Nordeste o clima ainda é junino, mas, dia 20 Recife vai pegar fogo!). Isso mesmo, alguma transgressão discursiva, em marcha contra abusos, sem tantas certezas, sem muitos vínculos óbvios com as expectativas de “novos horizontes utópicos”, talvez, intuídos como “construtivistas” de contracorrentes, ligados simultaneamente ao passado e ao futuro. Assim, na primeira pessoa, me sinto nesse intervalo indomável do tempo que não se curva. Muitas são as reuniões de que participo. Muito é o esforço de orquestrar algo que dê sentido e escuta ao que se passa nas ruas, dentro das casas de quem por ora só pode consumir quinquilharias até R$ 1,99. No Comitê Popular da Copa, por exemplo, o passado me empurra para o diálogo e para a colaboração (inclusive aberto a rodadas com governos da Copa!), mas, pensando em proteger e em oferecer alternativas de direitos para as famílias de Recife e Camaragibe (PE) que impiedosamente são jogadas para escanteio em nome do megaevento, esse que planta uma FIFA pra colher turistas! A intenção da luta num Comitê é boa (oferecer, preventivamente, meios para que as pessoas em carne e osso não sejam violentadas no seu direito de moradia, no seu direito de usar dos bens e serviços urbanos em saúde, educação ou transportes públicos ainda existentes no entorno da vida…). A essa intenção soma-se outra óbvia: na inevitabilidade do remanejamento dessas famílias, planejar pública e tecnicamente – respeitosos às suas trajetórias de vida – o lugar, a moradia, o lazer, o transporte e os serviços de que elas precisarão. Mas, sabe o que quer o Estado e as empresas executoras das obras da Copa: distancia desse tipo de problemas, urgência na produção urbana pró-Copa (estádio, corredores, aeroporto e hotelaria prontinhos para o turista!) e nenhum questionamento sobre suas iniciativas (muito menos sobre o custo das obras). Ou seja, os governos não querem ajuda para corrigir problemas e enfrentar as soluções coletivas! Os governos estão numa empáfia pública só explicada pela alta credibilidade das urnas. Os empresários seguem o mantra, pegam carona e o povo que se vire! Vocês acompanharam a classe média do Recife tendo o seu dia de “pobre” nos metrôs e nos sistemas de ônibus para assistir a um jogo da Copa das Confederações. Mesmo eles, eleitores convictos dos avatares da modernidade administrativa pública ficaram indignados com filas quilométricas, com empurra-empurra em metrô, falta de respeito às filas, pisão no pé dentro do bus, inoperância no bus rapid transit, falta de fast food, selfservice, water e outras maravilhas oferecidas em péssimo inglês para uma turma pouco exigente dos seus e dos direitos das massas. Mesmo assim, o governo responde tecnicamente no dia seguinte: faltou sincronia no sistema ônibus-metrô. Pronto, está consertado o problema. Direito conquistado, assim pensa o governo. Mas, as ruas não estão dizendo isso. Elas querem responsabilidade dos poderes públicos para com os direitos coletivos já conquistados. Elas exigem transparência quanto ao uso dos muitos milhões de recursos públicos empenhados nessas obras da Copa. Elas querem qualidade nos transportes públicos para antes e para além dos megaeventos. Elas lutam para que os custos da passagem dos traslados nas cidades tenham como baliza o direito à cidade com qualidade e não o lucro de quem já há muito se refestela nos fundos públicos desse país. Ou seja, numa fina ironia da história, os povos que estão impedidos de exercitar o direito à rua, vão às ruas da dizer que, aos poucos, o “rato está roendo a roupa do rei de Roma”. Será de Roma mesmo esse reinado? Acho que as ruas responderão, assim espero e dou lá minha contribuição! Por fim, engraçado e irônico é que escuto na TV uma propagando de venda de carro que convoca geral e diz, através de música de O Rappa: “vem vamos pra rua, pode vir que a festa é sua, que o Brasil vai tá gigante, grande como nunca se viu. Vem vamos com a gente, vem torcer, bola pra frente, sai de casa, vem pra rua, pra maior arquibancada do Brasil”. Como se diz no Sertão, se não era essa a intenção, ficou sendo!

 

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